Pensamento...

A vida é uma janela que se abre no sem fim do Tempo.
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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

CIVILIZAÇÃO ACONTECE?



Quando era pequeno sentia-me viver num mundo que me seduzia. Não tinha lucidez para fazer observações apuradas, ilações que levassem em si noções de justiça, perscrutar a necessidade de uma sociedade mais equilibrada, mais humana. Foi preciso tempo, que os anos passassem, para dessa constatação ir tomando conta.
Deslumbrava-me com coisas simples (que então o não eram para mim tanto como isso). Nesse tempo eu cuidava que o mundo tinha parado, que o progresso tinha atingido os limites, que não havia já imaginação para novos modelos de automóveis. Os aviões e a televisão acabada de aparecer tinham dado por encerrada a caminhada dantesca do homem na terra. A minha vulgar memória guarda pois desses tempos episódios, maneiras de estar, valores que na generalidade nos falavam da natureza humana tal como nos foi inculcado, mas também na maioria dos casos, factos, atitudes, modos de estar inócuos. Para os espíritos mais maduros, escassos, certamente observações a ter em conta, sobretudo em matéria de justiça social.
Só que, decorridos estes quarenta a cinquenta anos, o espectáculo, ou sensibilidade dos homens continuam no mesmo patamar. Se por um lado experimentou inegável progresso no mundo da ciência com indiscutível repercussão no seu modo de estar, na comodidade, num pasmo perante o fantástico, não poderá dizer-se o mesmo, lamentavelmente no que concerne aos valores que verdadeiramente caracterizam ou deverão caracterizar o comportamento humano que tem que ver antes de mais com a justiça e solidariedade.
Acontece que o dinheiro, esse desconcertante ingrediente, continua a fascinar o homem e por isso à cabeça dos seus maiores objectivos. E se o dinheiro não é o objectivo final, é o intermédio aquele através do qual se alcança tudo o que não interfira com a réstia de consciência que haja em cada um.
Naquele tempo, havia esse sentimento a que se chamava vergonha e também aquilo que era tido por honra e quem pisasse esses valores ia-lhe sofrendo as consequências. O homem de hoje, diz-se civilizado, veste a capa da austeridade e da honradez, mas, absurdo é-lhe consentido orgulhar-se dos seus devaneios, da sua ganância, da sua sede de ostentação, de um espírito de competição sem paralelo. Estas vestes não ficam mal ao homem moderno, antes lhe conferem respeitabilidade e direito a um destaque social. Por isso se vão tornando donos das instituições, das mais representativas de um povo.

Eu quando era criança interrogava-me sobre muitas coisas mas, lá no mais fundo da minha pessoa acreditava que civilizado seria o homem que vinha aí. Hoje constrange-me a decepção com que se deparam os meus olhos e todo aquele que sou com o descalabro a que assisto.
Por exemplo eu cuidava que os dez estádios de futebol se destinavam a durante uns dez meses em cada ano serem convertidos em espaços culturais, de acolhimento e de «dádiva» a todos os outros desportos; cuidava que uns tantos submarinos, última palavra, há anos encomendados viessem a ter utilidade correspondente ao seu custo; cuidava que derrapagens só aconteciam com as viaturas terrestres, quando afinal elas acontecem (e de que monta) com cidadãos a quem o nosso povo conferiu responsabilidades. Sim, tais derrapagens (que chegam a escapar ao poder da inteligência mais arguta), o suborno desmedido os ordenados e benesses de empresas públicas (e privadas, evidentemente) são neste nosso país um escândalo.
Terminaria este meu deambular pelo tempo, de uma forma utópica mas deixando em mim o sonho de que um futuro lhe conceda o benefício de uma certa esperança: - que chegue o tempo em que o dinheiro tenha um valor relativo para um homem que se tornou de facto civilizado. Quero dizer: um tempo em que o muito dinheiro não seja motivo de petulância, mas antes de um certo constrangimento, (sei que sou utópico), mas que o dito homem civilizado passará a ter em conta.
Que assim seja…

Antonius

sexta-feira, 22 de abril de 2011

SEXTA-FEIRA SANTA

Acabo de ler uma discrição de uma remota noite de sexta-feira santa. Ao entrar-lhe no que considero a sua alma, a sua razão de ser, a sua lógica, senti ressuscitar no mais profundo do meu ser a minha própria experiencia da infância, de adolescente e mais tarde do adulto que as circunstancias fizeram da pessoa que sou.

É tão rica a memória que guardo desse cortejo religioso, marcado pela simplicidade e pelo próprio anonimato que o colocava à prova de qualquer tipo de vaidade, tão rica de humanidade a sensibilidade que guardo dessa vivência enriquecida pelo bater dos bastões nas lajes graníticas da rua, mas sobretudo pelos acordes gradualmente menos distantes da marcha fúnebre de Chopin, que não posso nesta noite eximir-me dessa remota recordação, por razões que me são demasiado intimas e tocam o âmago da minha humana estrutura. Por isso não sei se me sobra coragem para voltar a assistir a essa cerimónia impar que não obstante se mantêm intacta na minha memória e na minha saudade.
Não sei com rigor onde termina o humano e começa o divino, mas sinto marejados os meus olhos e guardo profundamente cara a recordação dessa procissão de outrora.

Antonius


quinta-feira, 7 de abril de 2011

A CRISE

Há um ano a esta parte que neste nosso País a palavra que está na berra e é usada a torto e a direito é “crise”. Mais ou menos toda a população tem consciência de que vivemos, (não só nós, mas o mundo ocidental) uma crise de contornos não sei se bem definidos, mas que se anuncia coisa séria com que o ocidente se vai confrontar talvez por bastante tempo.

Mas se a dita crise envolve grande parte do mundo ocidental (por ventura repercutindo-se no resto do mundo), cada país vive-a e sente-a à sua maneira e também a intensidade da mesma diverge, dependendo muitas vezes em grande parte de factores endógenos. Muitas vezes de factores que podiam ter sido evitados ou pelo menos suavizados. O sul da Europa , pertencente ao mundo dito latino está a ser particularmente atingido e Portugal está tristemente na linha da frente. Digo tristemente por que pertenço ao número dos que pensam que alguma ou muita coisa podia e devia ter sido feita em termos de prevenção. Sim, acho que ao cidadão atento e sem necessidade de ser especialista, era visível há uns anos a esta parte que as coisas não podiam seguir indefinidamente pelo caminho por onde seguiam, havia que arrepiar caminho. Como naturalmente a nós portugueses é o nosso país que antes de mais nos diz respeito, vai para ele nesta hora a minha atenção especial. Abreviando, tem-se vindo a constatar que a nossa situação financeira é desastrosa. Todos sabemos e todos o dizemos que temos vivido acima das nossas possibilidades, num consumismo desenfreado, animados por um espírito de competição que às vezes é escandaloso.

Hoje mesmo o governo (que apesar de demissionário é ainda o que governa) acaba por decidir aceitar o apoio do FMI para poder enfrentar as suas dificuldades financeiras. Pressente-se que o país de um modo geral ansiava essa decisão, por não vislumbrar outro tipo de saída. Afundávamo-nos de dia para dia. Com esta decisão gera-se uma vaga de esperança.

A meu ver (ponto de vista generalizado) este pedido de ajuda ( para todos os efeitos acto de mendicidade mas a que o pobre tem que recorrer) deveria ter sido feito há bem mais tempo, mas a questão que se me coloca é bem mais grave: é que por muito bom que seja o espírito com que os estranhos nos apoiam (…) somos nós portugueses que temos de resolver o problema, pagarmos a quem ficarmos a dever e sermos capazes de reconstruir este país. Durante este ano houve 4 PECs, isto é pedidos aos bocadinhos, à custa do sacrifício da franja mais modesta, sobretudo os desempregados, que o resto da população por muito que se queixe e que fale em crise, esta ainda lhe não bateu à porta. O que penso é que o PEC (o primeiro) logo à partida devia ser coisa pensada, muito concreta a bater à porta da maioria dos cidadãos segundo as suas possibilidades. Sublinho a salvaguarda do sector efectivamente atingido, de grupos que começam a conhecer a fome, aqueles que não têm força para fazer greves, nem grandes nem pequenas.

Acreditei já que este país, apesar de pequeno fosse capaz de ultrapassar as suas dificuldades com inteligência e com tenacidade. Venho constatando com tristeza que de facto não merecemos mais do que ir na cauda da Europa, até parece que numa atitude protectora de quem vai a amparar os que vão na frente.

A hora que vivemos é séria, exigente para connosco e coisa importante que temos a exigir de nós é espírito de solidariedade. Não tenho estofo pessoal para dar um grande passo nesse sentido, mas há quem o tenha. Pois que ele seja dado e com urgência ainda que saibamos que ele vai mexer no bolso de cada um de nós. Tenho que dizer que sinto repulsa pelos desequilíbrios em termos de ordenados que vão por aí. Enquanto uns tem ordenados e pensões de miséria, outros há, não sei porquê, que se abotoam com vencimentos escandalosos, não falando nesse mundo de corrupção de que temos conhecimento ou que pressentimos. Não me venham com “capacidades” ou “aguçadas inteligências”, porque o que está provado é que ninguém é insubstituível.

Apetece-me terminar dizendo que na nossa pequenez física (refiro-me ao nosso país) seremos grandes quando formos capazes de, de punhos fraternalmente cerrados afirmarmos, aceitando que assim seja, que esses ordenados que são um escândalo passem a constituir em vez de razão de vaidade, motivo de vergonha. Sim, é que é vergonhoso que enquanto uns arrecadam verbas astronómicas, outros se confrontem com a fome.
Parece utópico, mas ainda espero que num espírito fraterno, solidário, de não endeusamento do dinheiro more o futuro deste País e então ele será grande e dele se orgulharão os nossos filhos.

Antonius

sábado, 19 de março de 2011

FUTURO ONDE ESTÁS?

No meu ancestral impulso de ir ao que está para trás, de visitar horas vividas - aquelas que valeu a pena – porque as há demasiado sofridas a apelarem para o receptáculo do esquecimento - fascina-me viajar no tempo, desde o tempo adulto passando pela adolescência, desaguando na infância e mergulhando no mundo do não conhecimento, da não memória, na semente que germinou e se tornou naquele que hoje caminho na estrada da vida – avançada fase, diga-se. Mas mergulhar no tempo será também visitar aquele que me antecedeu, que outros viveram, mas obviamente vidas que valeram a pena. Aqui e naturalmente ocorrem-me figuras humanas que, como soe dizer-se, deixaram marca, lídima marca da sua passagem. Percursos de vida que para mim, vulgar cidadão são fonte de reflexão e apreço.

Esse apreço ou reconhecimento não se fica por aqueles que deixaram memória na boca das gerações vindouras. Memória nem sempre justa, diga-se em abono da verdade. O meu reconhecimento inscreve-se em letras que eu quereria serem de ouro naqueles que não ficaram na história, mas na simplicidade das suas vidas, em que esteve presente o trabalho insano, a dedicação sem limites, o espírito solidário, a honra que lhes transbordava da palavra, o respeito e estima pelo seu igual. Enche-me a alma empreender este tipo de viagem pelos caminhos da informação séria, mas também da imaginação que acredito brotar dos escanos do meu inconsciente, que creio ser fonte de verdade.
Essa viagem, obviamente ocasional, proporciona-me cenas decerto vividas na infância, mas que não deixam de expressar ou de algum modo traduzir o que foram as vidas das gerações precedentes. Quando penso que a previsão da condição de vida do homem que viveu há mil anos haveriam de ser as do que viveu há setecentos, as do que viveu há quinhentos, e depois há trezentos e até duzentos anos, eram praticamente as mesmas; e de imediato penso, concluindo, que a partir daqui, sensivelmente, se operou uma mudança profunda, fantástica, no ritmo e na qualidade da humana caminhada.
Fico perplexo, repartido entre um saudosismo habitado por uma espécie de ternura ou gratidão e o deslumbramento ante um futuro que começou a desenhar-se há duzentos anos e que nos nossos dias atinge já o inimaginável. Quero dizer: atinge um nível de progresso técnico e cientifico (palavrões outrora desconhecidos) que nos levanta uma interrogação sem limites em relação ao futuro. Naqueles remotos tempos, duzentos, trezentos ou quinhentos anos praticamente nada significavam em termos de avanço nesses domínios. Hoje, a geração onde a história nos colocou, não tem maneira de imaginar o que as coisas serão daqui a cinquenta anos. Em suma a caminhada no progresso do homem é uma vertigem de metas insondáveis.

Mas depois desta breve reflexão uma questão demasiado séria fica a vibrar na minha natureza e na minha própria ancestralidade: será que o homem em termos da humanidade que lhe esteja inscrita nas entranhas ou na essência, está a acompanhar a dita vertigem técnico/cientifica? Até prova em contrario, tudo me leva a crer, preocupantemente, que não.

Antonius

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

NA ROTA DE PASCOAIS

Às vezes tenho-me na conta de saudosista. Não sei se tem que ler-se pretensiosismo nesse conceito e digo isto por desde criança me habituar a ouvir dizer que Teixeira de Pascoais era um cultor do saudosismo. Não imagino que relação possa haver entre essa cultura por parte do grande Teixeira de Pascoais e o espírito saudosista que se passeia no meu sentir. Mas será essa circunstância ou coincidência que me fazem pensar e até temer que haja efectiva pretensão da minha parte.
Há uma coisa que é um facto e de que me orgulho: somos conterrâneos. Nascemos na mesma terra, a uns quinhentos metros um do outro, mas também a uns sessenta e tantos anos um do outro; talvez aqui com desvantagem para ele, que não terá chegado a conhecer coisas como a televisão, a internet, os telemóveis e todo um mundo fantástico de coisas que nos separam naquele lapso de tempo, mas também com vantagem sua justamente por se ter visto livre dessa chusma de dependências, que ainda não sei se fazem o homem mais feliz.
A verdade é que ele é um símbolo ou o maior símbolo do saudosismo em Portugal; e eu, na minha pequenez, não escapo a esse sentimento. A que atribuir essa coincidência, se de coincidência se trata? Ou será a natureza, o ar que se respira, a paisagem a mesma, o mesmo Marão e até o mesmo rio Tâmega a rasgar as entranhas da nossa comum terra.
Seja como seja, prevalece um orgulho cavo a esse respeito nas entranhas da minha alma.
Acontece que tive a dita de conhecer essa lídima figura na minha terra quando eu ainda adolescente. Recordo-o uma figura de aparência modesta, vestido de escuro, mas com uma expressão facial granítica como que a traduzir o Marão que o viu nascer. Tive até a honra, se assim se pode dizer, de ir ao seu funeral, vão lá perto de sessenta anos. Recordo-me de se dizer que o caixão foi feito à pressa por ter de ser feito com a madeira de determinado pinheiro que ele destinara para o efeito.
Porque eu tinha necessidade de, de vez em quando ir a Gatão (aldeia da casa de Pascoais) de mando do meu pai, acontecia de me cruzar com aquele ilustre conterrâneo junto à “taberna” do seu compadre. Nessas ocasiões ao passar junto dele, ia com a mão à boina num gesto de respeitoso cumprimento. Esse gesto e a correspondência da sua parte, tem ainda hoje para mim um significado de uma aproximação humana que deixou raízes. Não sei se foi aí que por ventura inalei alguma lufada de ar de Pascoais que me transmitiu uma réstia do seu sentir saudosista. Não um saudosismo acabrunhante, deprimente, mas antes acalentador de uma paz onde mora um sentimento de estranha esperança.
Pensar assim é para mim homenagear essa Grande figura de pensador e humanista cuja obra estou a tentar reler com extremo apreço.